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Mimos e fetiches estranhos: jovens contam sobre sair com sugar daddies

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O termo “velho da lancha” ficou popularmente conhecido como apelido para homens ricos interessados em mulheres mais novas – que buscam estabilidade financeira – para proporcionar experiências de luxo, em uma troca de benefícios pessoais. O velho da lancha e sua patrocinada se enquadram em um relacionamento muito famoso atualmente: o relacionamento sugar.

Em sites de encontros, homens endinheirados, conhecidos como sugar daddies, investem alto para conquistar parceiras jovens e ambiciosas, as chamadas sugar babies.

O Metrópoles teve acesso ao um levantamento que revela que o Distrito Federal possui 507.588 usuários de uma plataforma específica para este tipo de encontro. Do total, 319.434 são sugar babies do sexo feminino, na faixa dos 27 anos, à disposição dos daddies

A unidade federativa é a 9ª do país em número de usuários no app, com um aumento de 120% em comparação com 2020, quando haviam 230.735 inscritos.

Atualmente, são 65.569 sugar daddies cadastrados. A média de renda mensal desses homens no DF é de R$ 82,8 mil e patrimônio estimado em R$ 4 milhões. No entanto, engana-se quem acredita que a maioria desses homens endinheirados têm idade avançada. De acordo com o balanço, a faixa etária média deles é de 37 anos.

Se invertermos os sexos e os papéis, a concorrência fica ainda maior. Sugars mommies e sugar babies do sexo masculino existem e sua presença em sites de relacionamento tem crescido. Nesses casos, a concorrência entre os interessados, é muito maior. No DF, são 111.570 mil jovens à procura de apenas 11 mil mulheres mommies cadastradas.

Foto colorida de perfil dos usuários da plataforma
Perfil de usuários de plataforma
Raio x sugar D
Idade média de usuários cadastrados na plataforma sugar
Raio x sugar DF
Renda média dos sugar daddies e sugar mommies do DF

A reportagem do Metrópoles conversou com quatro mulheres do Distrito Federal que se identificam como sugar babies. As personagens revelaram o que está por trás das relações cercadas por mimos que incluem mesadas generosas, jantares sofisticados, viagens internacionais e roupas caras.

“Privilégios que toda mulher merecia ter”

A alagoana Larissa*, 20 anos, começou a se relacionar com sugar daddies em maio do ano passado. De lá para cá, a modelo já viveu grandes aventuras nesse tipo de relação. A maior delas foi se mudar para Brasília por causa de um deles, no final de 2023.

“Ele me ajudou na minha mudança, aluguel, com as compras de casa. Ele é literalmente o homem alfa que eu preciso. Foi uma das melhores coisas que já fiz. Tenho meu apartamento em Taguatinga, recebo uma mesada em torno de R$ 10 mil. Com ele, já fiz também viagens internacionais para Dubai e Abu Dhabi, por exemplo”, conta a modelo.

Atualmente, ela vive uma relação exclusiva com esse daddy de 36 anos, que é dono de uma construtora. Segundo a jovem, os dois mantêm um relacionamento normal. “Não vejo nenhuma diferença, através da plataforma você vê o bônus de ter privilégios que toda mulher merecia ter. Para mim, está bem longe de exploração”, argumenta.

O interesse pelo universo sugar surgiu após uma amiga incentivá-la a se inscrever em um site de relacionamentos direcionado para esse público, com a promessa de que ela não iria se arrepender.

“Após frustrações com um término de namoro, essa amiga me disse que eu encontraria homens com a cabeça parecida com a minha, maduros e que me proporcionariam momentos incríveis”, comenta.

Dentre os mimos dos quais já ganhou do daddy, ela cita uma bolsa da grife Valentino avaliada em mais de R$ 10 mil. Só por passar um fim de semana em sua companhia, um homem endinheirado, de 58 anos, já desembolsou R$ 15 mil.

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Para ela, o relacionamento amoroso está atrelado ao financeiro. “Eu me considero uma pessoa jovem, bonita e tenho um futuro pela frente. Posso ter qualquer pessoa na mão, então por que eu vou perder tempo com alguém que não possa me dar nada?”, indaga.

Mas a modelo sinaliza que para conquistar os daddies não é tão simples assim. Segundo elas, os homens são mais seletivos do que se pensa. “Eles procuram mulheres que tenham classe, decência, saibam se portar nos lugares e, principalmente, beleza. Mas as mulheres também precisam saber se colocar na sua posição e impor limites quando necessário e não se render a tudo pelo dinheiro”, frisa.

“Recusei uma proposta que seria sonho de qualquer baby

Também moradora de Taguatinga, a empreendedora Júlia*, de 36 anos, entrou na plataforma MeuPatrocínio – especializada neste tipo de match – no fim do ano passado, em busca de um relacionamento amoroso com uma pessoa que tivesse uma condição financeira melhor que a dela.

“Sempre me relacionei com caras provedores. Valorizo muito a questão do cavalheirismo também, e gosto de caras mais velhos. Mas, para mim, nem tudo é dinheiro. Eu não aceitaria ser amante só por ser bancada”, destaca ela.

A empreendedora, no entanto, viu-se em uma realidade muito diferente daquela que imaginou com os sugar daddies. “A gente fica desacreditada pela quantidade de homens casados que fazem propostas de viagens e encontros”, diz.

No fim do ano passado, Júlia* recebeu uma proposta que avalia como a mais indecente que recebeu. “Já recusei uma proposta que seria sonho de qualquer baby. Um empresário cearense, de 53 anos, entrou em contato comigo dizendo que iria se candidatar na política e estava procurando uma companheira para quando começasse as eleições. Prometeu que me pagaria 3x mais do que recebo no meu trabalho, eu teria casa própria e ele também ia ajudar minha família. Mas, em troca, eu teria que ficar com outras pessoas na frente dele, pois a mulher dele precisaria ser compartilhada. Era um fetiche”, conta.

Apesar do retorno financeiro que esses homens viabilizam, ela não acredita que o relacionamento sugar se trate de prostituição ou exploração sexual, muito pelo contrário.

“Eu não vejo como [prostituição], porque eu posso escolher com quem vou sair. Os encontros não são somente voltados para sexo. Cheguei a sair com duas pessoas que não teve beijo, nem nada.  Recebi por isso, mas foi uma experiência que nunca tinha tido antes, conversa muito boa, inclusive, empresários que me deram dicas de negócios. Hoje, penso duas vezes antes de ir em um encontro com um cara que não seja daddy, porque é outro nível”, defende.

Atualmente, ela tem dois daddies, um de 51 anos e outro de 31. A empreendedora conta que não mantém relacionamento amoroso com nenhum deles e, também, não recebe mesada.

“Eu vejo que são homens carentes de companhia, querem alguém para conversar e te recompensam por isso. Um deles mora em Brasília, conversamos há meses, mas nunca o vi pessoalmente”, conta.

Mesada de R$ 20 mil

Há um ano e cinco meses sendo sugar baby, Amanda*, 19 anos, conta que, com o dinheiro que recebeu dos daddies, conseguiu sair da casa dos pais e mobiliar a sua nova residência.

Para além de uma mesada que já chegou a R$ 20 mil, recentemente a jovem foi presenteada com um bem de consumo para lá de luxuoso: um carro avaliado em R$ 110 mil. “Já aconteceu de eu pedir um Pix de R$ 120 e receber na minha conta uma transferência de R$ 5 mil”, revela.

“Hoje em dia eu estou com 4 daddies, nenhum de Brasília, mas um deles é casado. Eles têm entre 35 e 45 anos. A gente conversa normalmente, às vezes eles vêm me visitar, a gente mantém relação de carinho, mas algo mais aberto. Todos me tratam super bem, me dão flores, chocolate, viagens ou algum mimo. Até uma vaca de um daddy fazendeiro já ganhei”, surpreende Amanda*.

Para além dos luxos proporcionados pela relação sugar, a brasiliense já passou por situações em público de acharem que o daddy era, na verdade, o pai dela por conta da grande diferença de idade.

Já em outro caso, ela viajou para conhecer um daddy em outros estado e foi abandonada no aeroporto. “Estava tudo muito bom. Ele disse que tinha uma surpresa para mim. Falou para eu arrumar as malas, pois a gente ia para um lugar. Achei que a gente ia pra outra cidade, mas ele me enganou, me deixou no aeroporto para eu voltar para o DF e sumiu”, relembra.

“Eles têm prazer em ajudar”

A universitária Paula*, de 25 anos, relata que já saiu com muitos daddies ao longo de quase quatro anos usando a plataforma de relacionamento sugar. O que a motivou a virar uma sugar baby foi a vontade de melhorar a vida financeira. “Já consegui carro, casa própria e comecei a faculdade. Eles têm prazer em ajudar”, conta.

Segundo ela, entre os homens endinheirados que já a patrocinaram estão empresários, diretores de hospital, advogados, médicos e até delegado de polícia. Mas que, para além dos caras bem-sucedidos, ela também já foi alvo de golpistas.

“Teve uma vez que saí com um cara que conheci na plataforma para um restaurante. Ele havia me prometido um valor pelo encontro. Porém, durante o jantar, em um momento de descuido, ele furtou meu celular e foi embora. Foi um alerta para filtrar melhor com quem eu saía”, diz.

Dentre as propostas que já recebeu, a maioria são de homens de outros estados que oferecem uma determinada quantia para que ela viaje para conhecê-los. Aqui no DF, os encontros normalmente acontecem em restaurantes caros, cafeterias e podem ir até hotéis luxuosos.

“Peguei para mim um estilo de vida de só me relacionar com caras que vão me agregar e suprir minhas necessidades. A gente está em uma sociedade tão machista, que alguém que vai te impulsionar, é melhor do que você ficar com cara que não tem nada pra te oferecer. Eu estou atrás do meu crescimento, mas tem que ter mente aberta”, pontua Paula*.

Afinal, tudo são flores?

A psicóloga e terapeuta sexual Lorena Muniz avalia que as relações sugar são fruto de uma estrutura desigual que não dá a homens e mulheres condições equivalentes de ascensão econômica e social. Do ponto de vista dela, é uma sociedade em que as mulheres se veem, muitas vezes aprisionadas, em uma realidade de privação financeira e sem oportunidades de transformar essa realidade.

“O patriarcado concentra o poder nas mãos dos homens mantendo como pode as mulheres em situação de vulnerabilidade e fazendo com que muitas vezes elas enxerguem as relações sugar como as únicas possíveis para melhorar de vida e ter algum nível de dignidade material”, analisa a especialista.

Para Lorena, essas relações são construídas a partir do poder que o daddy exerce sobre a mulher, de modo que as tornam mais vulneráveis. “Elas se tornam dependentes financeiramente de homens e não podem mais exercer autonomia sobre si ou sobre o seu corpo, pois correm o risco de perder a relação que financia ela e ficar ainda mais vulnerável economicamente”, pondera.

“Muitas mulheres entram nesse tipo de relação para ter contas básicas pagas pelos homens como aluguel e despesas domésticas. Nesse ponto, o homem passa a ter total poder sobre a mulher, visto que a retirada do seu investimento financeiro comprometeria a sobrevivência material dessa mulher”, reflete a psicóloga.

Por fim, a especialista acredita que tem cada vez mais mulheres aderindo a esse modelo de relação porque existe nas mídias um movimento de naturalização desse modelo relacional. “Há um forte incentivo das mídias a esse movimento. Tem uma indústria fortíssima por trás de tudo isso que é a indústria do sexo. As relações sugar são vendidas como algo extremamente vantajoso para as mulheres e por isso mulheres cada vez mais jovens tem aderido a essas relações”, acrescenta.

* Nomes fictícios para resguardar a identidade das vítimas

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