A palavra labirinto vem do latim labyrinthus, apesar de sua origem mais remota vir da língua grega. Esse termo designa um espaço criado de forma artificial com diversas ruas e encruzilhadas para que a pessoa que entre nele fique confusa e não consiga encontrar a saída. A mitologia grega nos brindou com a construção do Labirinto de Creta, concebido pelo brilhante arquiteto e artesão Dédalo, a pedido do Rei Minos, para prender o “minotauro”, personagem mitológico com corpo humano e cabeça de touro. Acredita-se que a lenda sobre a existência do labirinto tenha surgido a partir do Palácio de Knossos, cuja complexidade da arquitetura, que incluía até mesmo um sistema de esgoto, relaciona-se à complexidade do labirinto. As ruínas do Palácio de Knossos são, até hoje, atração da Ilha de Creta, na Grécia. 

No Brasil de 2022, a corrida para ocupar o Palácio do Planalto tem todos os elementos de um verdadeiro labirinto para seus postulantes e eleitores. Arrisco afirmar que terá um enredo digno das tragédias dos teatros da Grécia Antiga. A saída vitoriosa do processo eleitoral presidencial de 2022 será aberta somente para quem conseguir atravessar passagens desconhecidas e, na maioria das vezes, incontroláveis. Nunca tivemos uma eleição que combinasse tantas ruínas: um presidente mal avaliado, um ex-presidente muito rejeitado, uma oposição dilacerada pelos interesses partidários individuais, uma crise sanitária sem precedentes, uma economia sangrando de veias expostas e uma opinião pública vivendo sem esperança de um futuro melhor. O objetivo deste artigo é dissecar os elementos (in)visíveis do labirinto de cada ponta da disputa presidencial. 

A começar pelo tortuoso caminho que se apresenta diante da reeleição de Jair Messias Bolsonaro. Há um consenso na ciência política que esse tipo de pleito é um “recall” ou referendo sobre o trabalho do presidente. O protagonismo é todo do ocupante da cadeira. O bom senso histórico nos remeteria a um favoritismo do atual residente sentado no trono do Alvorada. Afinal, após a redemocratização, todos os presidentes que buscaram um segundo mandato tiveram êxito. É razoável assumir que, no sistema presidencialista, o mandatário de plantão tem o poder da “caneta” (leia-se orçamento público) e também pauta a opinião pública. Difícil concorrer com dinheiro e atenção. Portanto, podemos concluir que Bolsonaro é favorito em 2022? Não podemos. O presidente possui os piores índices de aprovação em comparação a seus pares reeleitos (Fernando Henrique, Lula e Dilma Rousseff) quando analisamos o mesmo período de primeiro mandato. Mesmo a ex-presidente Dilma, recém-saída dos protestos de junho de 2013, tinha uma aprovação maior do que o ex-capitão. Para piorar, todas as pesquisas públicas apontam para uma avaliação como ruim/péssimo (negativa) de mais de 50% do eleitorado. Nenhum dos três ex-presidentes passou de 40% de ruim/péssimo em seus respectivos primeiros mandatos. 

Bolsonaro terá de enfrentar um quadro complexo na economia em 2022, com desemprego e inflação em alta e crescimento em baixaSergio Lima/Getty Images

Nas pesquisas EXAME/IDEIA, o sentimento majoritário dos brasileiros é que o presidente Bolsonaro “não merece continuar”. E, para complicar ainda mais, não há uma bala de prata na economia que possa anestesiar um quadro complexo de desemprego, inflação e baixo crescimento até as eleições de outubro do próximo ano. A economia é a temperatura da avaliação presidencial — e mostra um quadro febril. 

Nesse contexto do “minotauro” presidencial preso a suas próprias armadilhas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder das pesquisas de intenção de voto e com larga vantagem nos segmentos mais populares, é o favorito, então? Não necessariamente. Gostem ou não dele, o mesmo talvez seja a figura política brasileira mais importante desde Getúlio Vargas. Lula é amplamente conhecido e reconhecido como o líder da última memória de prosperidade econômica da população mais pobre. Também aparece forte nas pesquisas de intenção de voto (com parte da imprensa especulando se já é possível vencer no primeiro turno). E não custa lembrar que a única eleição que o PT venceu como oposição foi em 2002, contra um governo também mal avaliado. Todavia, não será nada simples a estrela voltar a brilhar. Mesmo sem estar no modo eleição (ou seja, mesmo não sendo diariamente atacado pelos adversários), Lula e o PT carregam uma rejeição alta (de 30% a 40% dos eleitores, a depender da pesquisa). A era pós-petrolão custou ao PT seguidas derrotas em eleições majoritárias. Os adversários abusaram da associação entre petistas e corrupção. Nossas pesquisas qualitativas indicam inclusive que Lula já é, entre os populares, conhecido como “rouba mas faz”. Diante disso, não será simples convencer a maioria do eleitorado de que o partido não teve nada a ver com a corrupção amplamente exposta durante os 13 anos que esteve no Planalto. Será um enorme desafio de autocrítica e comunicação. 

Vale lembrar que nas pesquisas espontâneas de intenção de voto (aquelas que o eleitor não é apresentado aos nomes de candidatos), o líder petista não passa dos 30% (número semelhante ao desempenho de 1994, 1998 e 2018 — anos de PT na oposição e de derrotas eleitorais nacionais). Além disso, há uma memória ruim, mesmo entre Lulistas, da gestão da economia do governo Dilma. Seria Lula capaz de, assim como Paulo Maluf, que publicamente pediu desculpas por ter indicado Celso Pitta à prefeitura de São Paulo, fazer um mea-culpa a respeito da administração econômica da ex-presidente? Para o Partido dos Trabalhadores, a pergunta-chave da eleição precisa ser sobre a continuida­de­ de Bolsonaro, e não sobre a volta de Lula. Uma nuance semântica mas muito relevante. Melhor o eleitorado focar a incompetência do atual governo do que pensar na corrupção do passado petista. 

Líder nas pesquisas de opinião pública para 2022, o ex-presidente Lula carrega alta rejeição, herança<br />do pós-petrolãoNelson Almeida/Getty Images

E, se a pergunta for sobre a volta do PT, a “terceira via” tem chance? Talvez, mas com muita ajuda dos deuses gregos. Há certamente uma demanda na opinião pública de eleitores que não querem nem Bolsonaro nem Lula. A depender da pesquisa e da forma de perguntar, esse segmento pode ultrapassar 40% dos brasileiros. Porém, além da demanda ser difusa (temos eternos seguidores de Ciro Gomes, lava-jatistas que sonham com Sergio Moro, tucanos paulistas que votaram em Geraldo Alckmin em 2018 e liberais do Leblon que se dizem órfãos de João Amoêdo, do Novo), a oferta é abstrata e obscura no imaginário da opinião pública. Com exceção de Ciro Gomes, Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta, ninguém sabe muito bem esboçar quem são João Doria, Eduardo Leite, Simone Tebet, Rodrigo Pacheco ou Alessandro Vieira. Esse latifúndio de opções cria um vazio na cabeça dos eleitores e um labirinto cognitivo. Será esse campo capaz de se aglutinar e ser uma opção viável para evitar a volta do PT e tirar Jair Bolsonaro do segundo turno? Seria necessária uma aliança que somente Tancredo Neves conseguiu articular (para uma eleição indireta), em um momento extremamente particular da história. A terceira via pode não engatar a primeira se não houver um consenso político mínimo de competitividade. 

Portanto, a eleição de 2022 está aberta ante esse labirinto político e eleitoral. Os atores devem se espalhar pelas diversas entradas sem ter a visão da saída, deixando os eleitores míopes diante das idas e vindas do cenário. Esperamos que saídas pelo esgoto, e que dinamitem as bases democráticas do processo eleitoral, não sejam opção. No final desse labirinto, torceremos para que saia uma liderança para ajudar o Brasil a encontrar saídas para seus inúmeros problemas reais. Uma coisa é certa: perdida no labirinto da dificuldade diária a maioria da população brasileira não quer se sentir mais.  

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