Artigo | Sou Samuel: assassinato de professor promove debate

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Ser professor é lutar contra o sistema imposto. Ser professor é libertar a mente do obscurantismo. Ser professor é iluminar o caminho que transformará a sociedade. Ser professor é ter coragem para mudar.

Na semana passada, comemoramos o Dia do Professor (15 de outubro) e, na sexta-feira (16), o mundo entrou em luto. Um professor de História, Samuel Paty, pai de família de 47 anos, pagou com a vida sua tentativa de falar sobre liberdade de expressão em sala de aula. O professor em questão mostrou aos alunos algumas caricaturas do profeta Maomé, algumas delas pertencentes a Revista Charlie Hebdo (que sofreu um massacre em 7 de janeiro de 2015).

Não havia intenção de criticar ou qualquer tipo de ligação a intolerância religiosa, mas sim mostrar aos alunos o que significava os termos liberdade, expressão e criticismo. Como professor de História me sinto OBRIGADO a emitir uma opinião sobre o que aconteceu, pois em minhas aulas tenho por objetivo todos os dias de mediar informações aos meus alunos e fazer com que eles transformem em conhecimento e que futuramente possam mudar a sociedade.

Pouco depois de deixar a escola onde trabalhava na pequena cidade de Conflans-Saint-Honorine, por volta das 17h da sexta-feira (16), o educador foi decapitado por um terrorista, um jovem de 18 anos de origem chechena que ficou indignado com a atitude da vítima em sala de aula.

Europa, minha nova casa?

A Europa atualmente é o refúgio de milhares de imigrantes que estão fugindo desesperadamente de seus países por conta de conflitos internos, guerras, perseguições políticas, ações de terroristas e violência aos direitos humanos. A origem da maior parte dos refugiados é de países da África ou do Oriente Médio.

Dentre os países europeus que mais receberam refugiados desde 2015, a França se destaca, pois a situação é muito crítica. Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), responsável por auxiliar no resgate desses refugiados, registrou-se em 2019 que a França recebeu mais de 80 mil de pedidos de asilo.

Desde o início dessa onda de imigrantes, a Europa tem sido palco de muitos atentados terroristas, vários questionamentos são feitos. Qual a situação atual? Quem são os terroristas? Como é que a União Europeia (UE) combate ao terrorismo? Faz-se necessário listar alguns dos maiores atos terroristas que vêm ganhando espaço nos jornais da Europa. Segundo dados do Serviço Europeu de Polícia (Europol), deu-se um aumento de ataques jihadistas, de 2 em 2014, para 17 em 2015, e 33 em 2017.

No ano de 2017, a maioria dos ataques que aconteceram na UE foram classificados como separatistas. A Europol classifica estes atos terroristas em quatro categorias de acordo com a motivação: direita, esquerda e anarquista e nacionalismo étnico. Segue-se uma lista dos principais ataques com motivação terrorista na Europa, desde 2015:

1) 7 de janeiro de 2015 — Um ataque liderado por dois irmãos à sede da revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, França. Matou 12 pessoas e feriu outras 11, incluindo jornalistas e policiais. O ataque foi reivindicado pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI).

2) 22 de março de 2016 — Um atentado terrorista, reivindicado pelo EI, na estação de metrô de Maelbeek e no aeroporto de Bruxelas, na Bélgica, fez 32 mortos e mais de 340 feridos.

3) 14 de julho de 2016 — No dia nacional da França, um tunisino em uma carrinha dirigiu-se contra a multidão, na Promenade des Anglais, a mais movimentada avenida de Nice (França) provocando 86 mortos e fazendo 450 feridos. O ataque foi reivindicado pelo EI.

4) 22 de maio de 2017 — Um atentado suicida, em Manchester (Inglaterra) matou 22 pessoas e feriu outras 100, no final de um concerto da estrela pop norte-americana Ariana Grande. O ataque foi reivindicado pelo EI.

5) 16 de outubro de 2020 – Samuel Paty, professor de História, foi decapitado por um jovem de 18 anos que achou ofensiva a aula que mostrava as caricaturas de Maomé em uma aula de liberdade de expressão.

Liberté, Fraternité & Igualité?

O fanatismo, o fundamentalismo religioso e a xenofobia ganharam muito espaço pelas ruas parisienses. Pelas ruas da França não é novidade uma Révolution; desde a queda da monarquia absolutista com a decapitação de Luís XVI e posteriormente do revolucionário Robespierre tem sido palco de grandes manifestações sociais, a última que ainda ocupa capas de jornais são as dos “Coletes Amarelos”, ocasionada pelas altas dos impostos.

Como professor de História e defensor da liberdade de expressão e da expressão da liberdade, defendo que todos devem SIM se manifestar sobre atos tão cruéis e fantasmagóricos como esse que ocorreu.

Vivemos hoje em uma sociedade do extremismo, onde o ódio ganhou espaço e tem se tornado lei e o mais perigoso de tudo isso é: os governos que deveriam manter a sociedade funcionando para o bem de todos incitam tais tipos de discursos de ódio.

Não é de hoje que percebemos a ascensão de governos autoritários ao poder através da democracia, que deveria ser utilizada como forma de demonstrar a nossa liberdade de escolha, no entanto, esta vai acabar resultando em nossa própria prisão social.

Repito minhas palavras sobre o Dia dos Professores: “Somos responsáveis pelas mentes e indivíduos do amanhã”, mas, não quero ser responsabilizado pela ignorância do ser humano. Como já diziam os grandes filósofos da Era Moderna: “Nada adianta mudar o homem se este não quer ser transformado”.

Por fim, quero aqui deixar um dos lemas mais profundos e significativos para a história da sociedade “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Já houve uma época em que este lema foi responsável por grandes mudanças, hoje, ficou somente nas páginas dos livros de História que retratam sobre a Revolução Francesa.

* Professor de História

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko



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