Crise do coronavírus escancara desigualdades entre escolas públicas e privadas no RS – Sul 21

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Crise do coronavírus escancara desigualdades entre escolas públicas e privadas no RS   Sul 21
Crise do coronavírus escancara desigualdades entre escolas públicas e privadas no RS Sul 21

Sem acesso à internet e equipamentos adequados, alunos de escolas públicas têm dificuldade em fazer aulas on-line durante a crise do coronavírus. Foto: USP Imagens/Creative Commons

Luciano Velleda

A pandemia causada pelo novo coronavírus tem afetado a sociedade em muitas outras áreas além da saúde. Os reflexos nas relações humanas e na economia provavelmente são os mais evidentes, mas há outros setores impactados, e um deles é a educação. Sem aulas presencias há quatro meses, as escolas têm sido obrigadas a encontrar alternativas para manter o vínculo com os alunos e dar continuidade ao processo de aprendizagem da melhor forma possível. Nesse sentido, as conhecidas desigualdades entre as escolas públicas e privadas do Brasil se tornaram mais evidentes.

Em geral, as escolas privadas conseguiram se organizar melhor e começaram a disponibilizar as aulas de modo remoto, com o conteúdo sendo oferecido aos estudantes por meio de sites ou aplicativos, e as aulas ocorrendo com o professor em ambiente virtual. Por outro lado, as escolas estaduais e municipais de Porto Alegre têm tido muita dificuldade em implementar o mesmo modelo de ensino remoto. Entre as principais razões está o fato de as aulas on-line exigirem acesso a equipamentos eletrônicos, como computador, telefone celular ou tablet, e acesso à internet. E nesse aspecto, alunos de famílias de baixa renda não têm as mesmas condições.

“É um fosso que já existia, mas se agravou no momento em que para ter acesso às aulas é preciso ter equipamento e rede de internet. Temos um contingente grande de crianças com acesso precário ou sem acesso”, explica Rosane Aragón, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FACED/UFRGS).

A professora da UFRGS teme que, a partir de agora, esse “fosso” entre as escolas públicas e privadas aumente ainda mais. Para que isso não ocorra, ela enfatiza a necessidade de o governo do Estado e prefeituras garantirem as condições adequadas para os alunos terem as aulas de modo remoto. Até porque, ela acredita, a situação irá se estender por meses. “Ainda vamos conviver com isso por muito tempo. Mesmo quando as aulas presenciais voltarem, vamos conviver com esse ambiente híbrido, entre aulas remotas e presenciais.”

Pesquisadora em Aprendizagem em Ambientes Digitais, atuando principalmente com  educação à distância, formação de professores e informática na educação, Rosane chama a atenção para o que define como “realidades paralelas”. Ela se refere a aspectos em torno do ambiente do estudante e que influenciam no estudo, como a tensão vivida pelo medo de contrair a doença e as condições de trabalho e renda das famílias nesse momento de agravamento da crise econômica. “Não estamos num momento tranquilo. O clima da casa, o ambiente, ele é diferente conforme populações também diferentes. Estamos dividindo muitas questões ao mesmo tempo, talvez tenhamos que aprender a trabalhar com a incerteza”, explica.

Também docente na mesma universidade, Renata Sperrhake, professora do Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação, destaca que a desigualdade sócio-econômica que caracteriza as famílias de alunos da escola pública e privada, se revela também em aspectos culturais. Uma característica do ensino remoto é a necessidade de haver um familiar para auxiliar o estudante, principalmente a criança, que não tem autonomia para estudar sozinha.

Nesse papel de tutor, Renata pondera o quanto os familiares têm capacidade para, de fato, auxiliarem no estudo da criança. “Como uma família, cujo responsável não é alfabetizado, consegue dar esse suporte?”, questiona.

Apesar das diferenças de estrutura, a professora da UFRGS elogia os esforços feitos pelos educadores da rede estadual e municipal de Porto Alegre. Com muitos dos alunos sem acesso à internet ou com equipamentos deficitários, as escolas tem tentado superar as dificuldades como podem, por exemplo, entregando o material nas mãos dos alunos. “Depois da manutenção da vida, as questões da escola deverão ser vitais”, afirma Renata, para quem as desigualdades do ensino público precisam urgentemente serem enfrentadas.

A vida como ela é

As desigualdades do ensino público são realidades que Vivian Nakata conhece bem, e de perto. Diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) José Loureiro da Silva, em Porto Alegre, ela diz que a escola até agora ainda não consegue usar a plataforma Córtex, anunciada pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) no começo de junho. Alvo de críticas por parte dos professores desde o início, o aplicativo ainda está longe de ter seu uso disseminado entre os alunos da rede pública municipal.

Os motivos já eram esperados e conhecidos: a falta de aparelhos eletrônicos e de acesso à internet. Sobre a primeira questão, o governo municipal desde o lançamento da plataforma disse ter a informação de que 90% das famílias da rede tinham ao menos um telefone celular em casa. O dado sempre foi contestado pelos profissionais da educação, que justificavam os aparelhos serem defasados ou não estarem disponíveis durante o dia para uso do aluno. E sobre o segundo aspecto, o governo de Marchezan anunciou que irá subsidiar o acesso à internet dos alunos para usar o Córtex, por meio de um acordo com as empresas de telefonia. Quase dois meses depois, entretanto, isso ainda não aconteceu.

Dois mil alunos da EMEF José Loureiro da Silva, apenas 300 conseguiram se cadastrar na plataforma até o momento, e usando para isso os próprios dados de internet. “A gente faz contato telefônico com eles, e eles estão com muita dificuldade até de baixar o aplicativo, porque não têm aparelhos compatíveis”, diz Vivian. Há casos em que os pais não conseguem realizar o processo e os educadores tentam fazer um “passo a passo” pelo telefone. “Estamos tentando ajudar as famílias, dentro de uma limitação, usando os nossos telefones, ‘correndo atrás’ das famílias com números desatualizados”, explica.

Baixar o aplicativo, todavia, não tem sido prioridade para muitas famílias com filhos na EMEF José Loureiro da Silva. A vida real impõe outras urgências. “Há muitos desesperados, inclusive dizendo que estão vendendo as coisas de dentro de casa para conseguir alimentação”, conta Vivian.

Embora esteja tendo plantão, a escola não está atendendo o público para distribuir material em função da grave situação de contaminação em Porto Alegre. Mesmo com os alunos sem internet e sem aparelhos eletrônicos, a diretora explica que os professores têm planejado e disponibilizado as atividades no Córtex, apesar do baixo número de alunos cadastrados e sem a Prefeitura garantir os dados de internet. O objetivo é “fazer acontecer” quando os alunos tiverem acesso à internet. “Já que a Prefeitura nos impôs essa plataforma, agora esperamos que nos dê o suporte. Mesmo sabendo que as famílias vão ter dificuldades, têm muitas famílias nos dizendo que tem 4 ou 5 filhos e um único aparelho disponível.”

Para driblar a realidade que se impõe, a escola também criou um “repositório interno” com o conteúdo que está sendo incluído na plataforma. Ao salvar as atividades, a ideia é encaminhá-las depois aos alunos. “Estamos preocupadas em salvar vidas. A gente entende a dificuldade, mas a realidade do vírus está aí. Temos muita preocupação com a vida deles (os alunos) e com as nossas, não podemos ignorar o que está acontecendo em Porto Alegre. Então, estamos guardando essas atividades para que, no momento em que pudermos ter uma certa flexibilização, em que o cenário epidemiológico esteja melhor, os alunos possam ter acesso a esse material”, explica a diretora da EMEF José Loureiro da Silva.

Vivian diz que antes do lançamento do Córtex, a escola se dedicava a manter o vínculo com os alunos por meio do Facebook. Porém, após a exigência da Prefeitura de uso da plataforma, a equipe da escola se desmotivou em seguir fazendo ações próprias. “Veio a determinação de usar uma plataforma que não foi discutida com os professores da rede municipal, com a imposição de que só a plataforma contaria como aula, então as nossas ações no Facebook agora ficaram mais restritas à interlocução com as famílias que estão com dificuldade de cadastro”, justifica.

Ao analisar as diferenças de estrutura entre escola pública e privada, a diretora, com 20 anos de dedicação ao ensino, explica em minutos uma história de décadas de descaso. “A gente vive essa realidade de abandono social. Veio à tona a realidade que a gente conhece. Muitas pessoas ouviam a gente falar, mas não enxergavam o que a gente vive. Isso fez com que a gente percebesse que, o que está positivado na Constituição Federal, é só um texto. As pessoas não têm acesso de forma igualitária, desde as coisas básicas, como saneamento, moradia. Acho que agora, as pessoas que seguem excluídas disso tudo, estão aparecendo. A invisibilidade desse sofrimento, para algumas pessoas, agora está aí. A gente sobe o morro, a gente sabe que tem família que não tem banheiro em casa”, relata Vivian.

O centro da questão, avalia a diretora, é a inoperância do poder público, com falta de políticas pública efetivas capazes de mudar a realidade da escola pública. A pandemia do novo coronavírus e todos os impactos que tem causado na sociedade, faz Vivian ter esperança de que sirva para transformar a dureza do cotidiano que ela conhece bem. “Queria que tudo isso que estamos passando não fosse em vão, que isso servisse para as pessoas valorizarem o que é público e investirem no público. A gente precisa viver de outra forma. Enquanto a gente tá em casa, com internet, auxiliando um filho, têm muitas famílias saindo pra rua e se expondo porque simplesmente precisam comer. A desigualdade aflorou e se fez vista. Gostaria que tudo isso servisse para as pessoas terem empatia por quem não tem o mínimo e cobrassem de quem tem que fazer alguma coisa por elas. Não é possível a gente continuar vendo as pessoas morrerem de fome e continuar achando que é problema do outro.”

O Estado das coisas

Um desafio. Assim Bruna Ruiz dos Santos define a necessidade de implementar o ensino remoto na Escola Estadual de Ensino Fundamental Onofre Pires, localizada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, e que conta com 320 alunos. De março até junho, a escola criou um sistema de disponibilizar o conteúdo das aulas via Google Drive, enviando o link para pais e alunos por vários meios, inclusive o WhatsApp.

No começo de junho, o governo de Eduardo Leite (PSDB) anunciou a criação do Google Sala de Aula, ambiente virtual no qual todas as escolas do Estado teriam suas turmas ali reproduzidas e enviariam o conteúdo didático. A princípio, junho seria o mês para alunos e professores começarem a usar a plataforma para se ambientar. Mas não foi e somente agora, no final de julho, os alunos da Escola Onofre Pires iniciam os primeiros contatos com o novo sistema. E ainda assim, com percalços. Além da plataforma ainda não estar concluída, os conhecidos problemas de falta de acesso à internet e de equipamentos apropriados se fazem presentes.

“A gente esbarra em mil fatores. Tenho dificuldade com os professores e com a comunidade escolar, dificuldades com quem não tem computador ou não sabe como fazer. Toda semana tem um professor que mandou o computador para arrumar…”, explica Bruna. Quando o envio do conteúdo era por meio do Google Drive, ela estima que cerca de 30% dos alunos estavam fazendo as atividades. Agora, nos primeiros dias da nova plataforma, dos 320 alunos ela avalia que, em torno de pouco mais de 10 estão “se esmerando”.

Para driblar a dificuldade de acesso dos alunos à internet, o governo estadual, assim como a Prefeitura de Porto Alegre, anunciou que subsidiaria os dados. O modo encontrado é por meio de outro aplicativo, intitulado Escola RS Estudante. Todavia, o que era para ser solução, na prática, esbarra em outra dificuldade. A diretora da escola explica que os telefones celulares dos alunos ou dos familiares costumam ser aparelhos simples, com pouca memória para baixar e rodar mais um aplicativo. E há ainda a necessidade de acessar inserindo o CPF, o que também causa outras complicações. Como se não bastasse, ela conta que muitos alunos foram obrigados a irem trabalhar para ajudar em casa, diante da grave crise econômica que atinge a todos, e particularmente famílias mais vulneráveis.

“O governo faz propaganda, mas a realidade é bem diferente. Primeiro o governo fala com a mídia, e depois fala com a escola”, critica Bruna. “Estão numa lerdeza para organizar as coisas, estamos em agosto e a plataforma ainda não está toda pronta. A gente nota que o governo não tem plano B.”

A análise de Bruna encontra eco no pensamento de Vivian Nakata, diretora da EMEF José Loureiro da Silva, que diz não querer mais ouvir discurso. “A gente quer ação. E sem uma política pública efetiva sempre vai ter essa disparidade entre escola pública e privada. Não consigo imaginar um país que não tenha um olhar para quem mais sofre, seja um país sério. A população vai ter que entender, que não dá mais pra ter essa discrepância.”

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