Carta aos meus filhos (por Márcio Chagas) – Sul 21

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Carta aos meus filhos (por Márcio Chagas)   Sul 21
Carta aos meus filhos (por Márcio Chagas) Sul 21

 Ato contra o fascismo, o racismo e em defesa da democracia, em Porto Alegre. Foto: Luiza Castro/Sul21

Márcio Chagas (*)

Ressignificar a vida é importante para que possamos entender que não existe verdade absoluta e, a partir dos aprendizados, tentar fazer algo que faça sentido para o que acreditamos ser o correto e urgente que façamos.

Anos atrás assisti um dos filmes mais belos que já vi, O Mordomo da Casa Branca. O ator Forest Whitaker passa a trabalhar em um hotel ao deixar a fazenda onde cresceu. Sua vida dá uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que vão ao local. Porém, as exigências do trabalho causam problemas com sua família, principalmente com seu filho, que não aceita a passividade do pai diante dos maus tratos recebidos pelos negros nos Estados Unidos. O pai, por sua vez, acredita que a subalternidade e falta de questionamento seria a maneira correta de sobreviver e assim poder formar sua família e se manter no trabalho.

Quantos negros crescem ouvindo que seu lugar é servindo, e que aceitar calado seja a maneira correta para resistir às covardias da branquitude?

Faço essa referência após ler a entrevista do ativista negro Oswaldo Camargo, pai de Sérgio Camargo, Presidente da Fundação Zumbi dos Palmares.

Quero que meus filhos entendam e deem continuidade à luta antirracista, que saibam e respeitem a luta dos seus ancestrais e dos movimentos negros que resistem há anos num país que nega a possibilidade de equiparação.

Sempre que vejo o Sérgio Camargo falando, lembro de um trecho da música dos Racionais, Capítulo 4 Versículo 3: “em troca de dinheiro e um cargo bom, tem mano que rebola e usa até batom, vários patrícios falam merda pra todo mundo rir, pra ver branquinho aplaudir”.

Fico triste de ver um pai que lutou por igualdade, e desde os 19 anos faz parte do ativismo negro, ter que dizer sobre o filho que “seu caminho não é o meu”, como disse Oswaldo Camargo sobre o filho Sérgio.

Ao falar de Oswaldo e Sérgio falo também de mim, de meu pai Celso, o Buda, e dos meus filhos, Miguel e Joana. Contemplo a minha árvore genealógica mas, principalmente, reflito sobre os negros e negras que vieram antes de mim e os que ainda chegarão neste mundo.

Que meus filhos tenham liberdade de escolher seus próprios combates e como lutá-los, mas desejo que o façam honrando meus ancestrais e que sigam a luta antirracista.

Que meus filhos não se vendam contra a história do seu povo por um cargo e com pessoas que não nos respeitam.

Respeitem as lideranças negras que lutaram por uma sociedade igualitária e equânime. Não aceitem calados o silenciamento imposto pelo opressor racista. Orgulhem-se de quem vocês são e da força que carregam da semente plantada pelos guerreiros contra o racismo. Essa semente sempre vai fertilizar na nossa terra.

(*) Ex-árbitro de futebol e comentarista esportivo. Pré candidato a vice prefeito de Porto Alegre.

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As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

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